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20.03.2009
A força da economia verde
 

A força da economia verde Em alta // Mercado ganha espaço, com função de salvar o planeta, mas movimentando as cifras
Tarcísio Ferraz // Diario
tarcisioferraz.pe@diariosassociados.com.br


Sem ajuda de equipamentos de um laboratório, seria difícil apontar a diferença entre um produto orgânico e um convencional. E isso vale para frutas, verduras, bebidas, cosméticos e até roupas, alguns dos bens de consumo que, obtidos sem o uso de elementos químicos ou sintéticos, ganham o status de contribuição na tarefa de salvar o planeta. Pois é assim, de forma sutil, pouco perceptível, que os orgânicos vêm tomando conta do mundo e desenvolvendo um papel fundamental na economia mundial.

Em Pernambuco, a força dos orgânicos pode ser observada na multiplicação das feiras que vendem exclusivamente esse tipo de produto, que já são 35 em todo o estado, segundo levantamento do Centro Sabiá de Agricultura Ecológica. Tanto que o governo estadual iniciou um projeto para a implantação de um "polo orgânico" na Zona da Mata do estado, que vai ajudar a identificar, organizar e comercializar a produção local. Até agora, o trabalho, organizado pelo projeto Promata, já conta com 521 produtores envolvidos, com a meta de chegar a mil, aproximadamente.

"Hoje, a oferta de produtos orgânicos em Pernambuco é muito menor do que a procura. Muitas das feiras livres que trabalham com o setor começam às 7h e às 8h já venderam tudo", diz Lúcia Barbosa, gestora de projetos do Promata. O trabalho começou há oito meses e deve ter seguimento com a identificação de mais cerca de 500 produtores estimados que trabalham com orgânicos. Além dos que já trabalham com produtos do segmento, o polo orgânico vai também ajudar agricultores a converter sua cultura em orgânicos.

E é no mercado externo, mesmo com os efeitos da crise internacional, que a força econômica dos orgânicos brasileiros se faz sentir. Em 2008, os produtores nacionais no segmento atingiram a marca de US$ 12,3 milhões em exportações. Os números são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que somente a partir de agosto de 2006 passou a levantar os dados sobre exportação de orgânicos.

O que vem sendo espantoso, para os economistas, é a rapidez com que os orgânicos vêm tomando conta do mercado, pelo menos até a crise explodir, no fim do ano passado. Estima-se que o mercado de orgânicos no Brasil movimente aproximadamente US$ 250 milhões por ano. No mundo, em apenas três anos, o mercado passou de US$ 24 bilhões para US$ 40 bilhões em 2006. Um aumento de 66,6%, aproximadamente.

"Em termos de crescimento, os produtos orgânicos chegam a 30% ao ano. No Brasil, está até acima disso. Quando o PIB de um país chega a 5% já está todo mundo batendo palmas", resume o economista e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Guerino Filho.

O valor citado corresponde a 0,06% do PIB mundial, calculado em cerca de US$ 60 trilhões. Apesar da ressalva, Guerino Filho concorda que o aumento do consumo de orgânicos pode ser um fator importante de desenvolvimento, particularmente em regiões pobres como o Nordeste brasileiro. "É preciso um incentivo institucional mais forte, de governos e entidades ligadas à agricultura, para organizar os pequenos produtores".

O crescimento depende de superar a barreira do preço final, já que, pelo próprio custo, os orgânicos são mais caros que os produtos convencionais, o que acaba afugentando alguns consumidores. Mas isso pode ser uma questão de mudança de cultura. "Ainda existe o tabu de que o produto orgânico é caro, porque realmente há uma diferença de 15% a 20% em relação ao produto comercial, mas os consumidores estão dispostos a pagar um pouco mais por qualidade e pela ajuda a preservar o meio ambiente", aposta Cristina Lemos, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Agropecuárias (IPA) e especialista em orgânicos.


Opção de fonte de renda


Em uma pesquisa do Centro Sabiá de Agricultura Ecológica, realizada com 39 famílias que trabalham com a produção de orgânicos, a renda anual de cada uma delas correspondia a aproximadamente 13,5 salários mínimos. Ou seja, a agricultura familiar baseada na produção orgânica é uma opção relevante como fonte de renda, mas ainda é preciso torná-la mais lucrativa. Apesar disso, os produtores não reclamam.

"A agricultura orgânica é mais lenta, mais trabalhosa. Mas enriquece muito o solo. A convencional é rápida, mas você planta e no outro ano já não dá mais", resume o agricultor José Augusto Vieira, de Glória do Goitá. Há oito anos, ele baniu as plantações convencionais do sítio de 20 hectares do qual tira seu sustento, atividade que herdou do pai, depois de passar por uma capacitação realizada pelo Serviço de Tecnologias Alternativas (Serta).

Hoje, ele reconhece que valeu a pena mudar para a agricultura orgânica, já que participa de quatro feiras semanais no Recife, nas quais apura, juntas, cerca de R$ 1.100 com os produtos que tira de sua própria horta e da de um produtor associado. Suas bancas vendem todo tipo de verdura e fruta, de tomate a carambola.

Já o casal Eliane Lima e Hélio Groschke decidiu começar a plantar orgânicos no sítio em que mora em Moreno, município da região metropolitana do Recife, em 1993. Hoje, depois da aposentadoria, os produtos que vendem em três feiras no Recife garantem um complemento para a renda familiar.

"Fomos para Moreno porque queríamos uma vida mais saudável, próxima da natureza. Começamos a vender os produtos na feira organizada pelo IPA e fomos convidados para a da Ceasa, e em seguida para a de Casa Forte. Nosso faturamento diário em cada feira é de cerca de R$ 100. Não dá para sobreviver só da agricultura, mas é um complemento para nossa renda", diz Eliane.

 
Fonte: Tarcísio Ferraz // Diario
 
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